Da porta nem parece que é
diferente de qualquer outro. Naquela rua
mesmo tem vários outros, igual-que-nem. Eu entro e meus olhos, como em qualquer
sebo, viram frenéticas borboletas, procurando um lugar para pousar.
Naquela rua mesmo tem vários
outros, igual-que-nem. Igual-que-nem qualquer outro, esse tem livros empilhados
pelo chão e nas prateleiras. Etiquetas indicativas escritas há muito tempo.
Sociologia. Administração. Auto Ajuda. TJ senta-se no banquinho à porta e
folheia um livro infantil sobre reciclagem.
Meus olhos, como em qualquer
sebo, viram frenéticas borboletas, procurando um lugar para pousar. Como sempre
que entro em um, procuro desesperadamente me lembrar de títulos que eu quero,
preciso, não viveria sem, mas quase nunca me
vem nada. Ontem me lembrei.
Virei-me para ir até o livreiro.
No fundo da loja, quase que escondido atrás das pilhas de livros em cima do
balão, está sentado o livreiro. Ele percebe o meu olhar, e tira seus olhos por
um momento da tela do computador. ‘Pois não?’ Sua voz é baixa, contida. Tento
chegar até o fundo da loja sem derrubar nenhuma das inúmeras pilhas de livros
que estreitam os corredores entre as prateleiras. Alcanço o balcão sem nenhum
incidente. Inacreditável.
‘Você tem algum Caio Fernando Abreu?’ O livreiro
suspira. Seu suspiro parece durar vários segundos, abrindo um buraco no tempo.
Enquanto ele suspira, eu percebo que atrás dele tem um quartinho, e que o
quartinho deve estar lotado de livros também, porque vislumbro, de onde eu
estou, pilhas de livros de vão do chão quase até o teto. Logo atrás do
livreiro, mais livros empilhados. Livros cobrem as paredes em volta do
livreiro, e sua mesa de trabalho desaparece embaixo de mais livros. Ocorre-me
que todos os livros atrás do balcão, em volta do livreiro, aguardam, pacientes,
que suas mãos os alcancem, que abram suas capas, folheiem suas páginas. Longas
horas alimentando o computador.
‘Não tenho não. Ele virou moda, né?
Nos anos 90 todo mundo tinha uns 15 livros dele nas prateleiras, mas agora não
se acha nada... Moda...’ Ele suspira novamente, e me olha com olhos magoados,
como se eu tivesse desnecessariamente aberto uma ferida que acabou de se
fechar. Não sei se fico triste ou contente. Triste porque não se acham mais
livros do Caio, e porque ele foi reduzido a um item de moda, ou feliz exatamente porque não se acham mais livros do
Caio, porque tem gente andando por aí com seus livros embaixo do braço. Mas na
hora, falando com o livreiro, me senti culpada por perguntar. TJ e eu saímos
loja, eu contando pra ela sobre o meu diálogo com o livreiro deprimido.
Um dia vamos voltar lá e
não encontraremos o livreiro. Haverá mais livros espalhados, empilhados, em
caixas. Milhares de livros. Será difícil andar por entre eles. Vamos olhar em volta,
esperar um pouco, chamar pelo homem sem nome, e sair para a rua, intrigadas. O
livreiro estará vivendo dentro de alguma história, em um dos livros empoeirados
ao lado do computador. E lá será feliz para sempre.

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